Traços de Família - Arquivo Pessoal da Família Teixeira

Autora: Lielva Azevedo Aguiar
Professora Assistente do curso de História da UNEB/DCH VI, campus Caetité
Mestra em História Regional e Local pela UNEB/DCH V, campus Santo Antônio de Jesus


Galerias

Traços de Familia

Reúne fotografias da Família Teixeira que registram as relações desenvolvidas no âmbito familiar.

Idas e Vindas

Reúne fotografias e cartões postais que documentam o dinamismo sociocultural e econômico vivenciado no alto sertão da Bahia a partir do ir e vir de pessoas, correspondências, mercadorias, informações. Além disso, demonstra a variedade do Arquivo Pessoal da Família Teixeira e as relações estabelecidas com outros lugares do Brasil e do exterior.

Cenas que ficam

Fotografias variadas, transcendentes, algumas sem identificação, que se dispersam no emaranhado de documentos guardados pela Família Teixeira e convidam o pesquisador a olhar um pouco mais.

No Arquivo Público Municipal de Caetité encontram-se arquivadas mais de cinco mil correspondências, além de fotografias, cartões postais e diversos outros documentos, que pertenceram à família Teixeira, doados em 2003 pela Sra. Ana Christina Teixeira Monteiro de Barros (Babi Teixeira), presidente da Fundação Anísio Teixeira. Produzidos por homens e mulheres, esses documentos versam sobre os assuntos mais variados, não só relativos ao sertão baiano, como também a outras regiões, registrando acontecimentos de amplitude nacional e internacional, demonstrando que a sensação de viver no sertão não era de isolamento, apesar do ritmo do passo da montaria. Política, educação, comportamento feminino, negócios de família e vida social, temas muito próprios do Brasil de fins do século XIX e inícios do XX, são fartamente documentados naquele acervo.

Embora se trate de documentos produzidos por pessoas enriquecidas, o pesquisador notará, no vasto conjunto de correspondências e iconografia do alto sertão da Bahia, um conjunto de problemas sociais que acometeram a todos os moradores do lugar em maior ou menor grau: secas, fome, emigrações, problemas de saúde, favoritismo político, crises econômicas etc. Daquele universo, emergem ainda sujeitos de vida simples, como os camaradas, tropeiros, feirantes, vaqueiros, lavadeiras, cozinheiras, crianças órfãs, entre outros que dividiam com as ricas famílias as experiências de vida em um sertão (como de todo resto do Brasil) marcado por grandes disparidades econômicas. Experiências que, assim como na realidade, inevitavelmente se cruzam na documentação...

Através deste arquivo é possível visualizar o traçado de um sertão que se modificou ao longo de sucessivos processos históricos; de paisagens que se transformavam com o ir e vir das estações, variando as cenas de uma região que ao primeiro pingo de chuva se faz verde. É possível ver o desenho dos velhos caminhos do sertão, por onde as boiadas passaram rumo a outras regiões da Bahia e do Brasil. São linhas que imageticamente nos levam a escutar o aboiar dos vaqueiros, o trotar dos cavalos, o sino badalando por entre a caatinga e, ao mesmo tempo, o som do bandolim tocado pelas mocinhas nas festas de família, a música do gramofone e o espocar dos fogos de artifícios nos dias de comemorações públicas... Desse emaranhado de registros e sensações, destacam-se as correspondências pertencentes a Deocleciano Pires Teixeira, de numerosa família, com parentes e filhos muito influentes na vida política nacional, a exemplo do seu irmão, Rogociano Pires Teixeira, e do seu filho, Anísio Teixeira. Envolventes, sedutoras, capazes de traduzir um olhar distinto para um momento particular da história política baiana. Através delas é possível entender como Deocleciano Teixeira e familiares alcançaram grande destaque dentro e fora do alto sertão da Bahia. Elas demonstram, com riqueza de detalhes, a existência de uma rede de sociabilidades imprescindível para assegurar posições políticas, cargos públicos e interesses diversos, na ziguezagueante política da Primeira República. A trajetória política de Deocleciano expressa os embates políticos daquele período.

Em meios às questões políticas, assunto predominante em suas correspondências, as letras muitas vezes trêmulas e quase ilegíveis de Deocleciano Teixeira, denunciando o avançar da idade, descrevem também os aspectos mais intimistas da vida daquele político do interior baiano: as relações com a família e com os sujeitos à sua volta, com seus credos e idiossincrasias, com seus afetos e desafetos. Em alguns casos, a vaidade ferida perante as veleidades da vida política e a necessidade de consolo deram lugar a desabafos, manifestações de insatisfação, raiva, autoritarismos...

Em outros momentos, especialmente diante das conquistas políticas, nota-se o regozijo, a sagacidade de um homem experiente, a argúcia de um político astuto. Não raro, o Deocleciano esposo, irmão, pai, avô... aparece envolto em palavras de saudade, em conselhos dados, em preocupações compartilhadas... As cartas em que mais se revela são aquelas escritas ao irmão, amigo e confidente, Rogociano Teixeira. Nelas, os traços da sua personalidade se delineiam, revelando a complexidade do sujeito que se constrói diante das diversas circunstâncias que o cercam.

Por fim, vale ressaltar que este vasto arquivo abriga ainda trajetórias diversas, jamais estudadas, de sujeitos como Deocleciano Teixeira, mas também de homens e mulheres cujos nomes talvez nem sejam descobertos, pois não se evidenciam nas linhas centrais das correspondências, nem nos planos principais das fotografias. Com um olhar atento, uma ponta de sensibilidade e o devido cuidado metodológico, é possível desvendar novas histórias...